Quando você apareceu na minha vida meu coração apunhalado gritou: era o que faltava. Eu estava caída, acabada, brigada com a auto- estima e me estranhado com o amor-próprio, e aí então chegou você, prezado cavalheiro, estendendo a mão e levantando-me delicadamente. Fez questão de enfatizar o quanto me achou bonita, o quanto você havia gostado desse meu jeito menina-moleca, como havia se encantado pelo modo como defendo minhas opiniões; disse-me que eu não tinha ideia do quanto fazia bem a minha companhia, que eu era muito para todo mundo, inclusive para você. Ah, meu caro, foi tão estranho e tão saboroso provar pela primeira vez esta sensação de sentir-se amada, venerada, desejada, necessária, única. Doce homem- menino sei que há muito não nos vemos e há tanto quebramos o contato, mas eu ando te observando de longe. Mas quer saber? Até passou aquele tempo em que eu te escrevia milhões de poemas, cartas e guardava para mim; que esperei você bater na porta de minha casa ou que cruzei os dedos para ouvir tua voz do outro lado da linha telefônica. Passou a época em que eu chorava e jurava morte a qualquer outra que tentava te fazer feliz, não imaginas o quanto praguejei para que nenhuma dessas sortudas conseguissem. Hoje, meu querido, o sentimento que eu trago por ti é tão evoluído que nem me lembro mais dos sofrimentos que você me causou; que eu não desejo mais teu bem só perto de mim. Agora, eu quero mesmo é que você seja feliz, que uma qualquer, muito especial, saiba dar o melhor dela e roube o seu pior; também não te quero mais só para mim, entendi que você é da vida, é claro que ainda sou capaz de cuidar de você, mas só de longe, de coração, por oração. Peço demais para que tu seja feliz, bem longe de mim, livre. Por esses tempos, só consigo lembrar do que a gente teve de bom; mas espera, a gente teve coisa ruim? Foi tão pouco tempo... Ah, te quero um bem enorme, danado, louco, desesperado; mas é coisa pura, limpa, sincera, escondida. Não se preocupe, eu continuarei a zelar por você, cuidar da tua importância para mim e mandar o tempo inteiro minhas melhores vibrações através do dedilhar de um violão qualquer. Sempre, sempre e sempre. Não posso negar que você não me causa mais todo aquele efeito, que o coração bate um pouquinho mais devagar quando eu te olho e que eu te xingo quatrocentas vezes ao dia pela sua falta de atitude que tem de existir. No entanto, não posso ser leviana o bastante e deixar de dizer que você ainda mexe comigo (bem mais do que devia), que eu alimento insanamente uma pontinha de esperança de que aconteça uma nova “recaída”, que repito todos os dias para mim uma das últimas palavras que pensei naquela noite: “o que eu sinto por você sempre vai voltar quando eu te olhar novamente”. Já sei: lembrei agora, que uma vez quando eu pensei em desistir, você me disse que quando eu quisesse mais que tudo alguma coisa era só fechar os olhos com força e pedir, pedir, pedir, que se quando eu os abrisse o meu desejo não estivesse ali eu olharia para o canto e acharia determinação para buscá-lo. Pois é, vou fechar os olhos, apertá-los, apertá-los, apertá-los e vou abri-los devagarzinho para ver se você aparece na minha frente e mata esse medo. Fechei. Apertei, dessa vez mais forte ainda; abri o mais devagar que pude, no entanto ainda chove, os relâmpagos estão mais fortes, o medo ainda me consome e, ah, vejam só: você não está aqui, aliás, você nunca esteve. Um dia a gente se esbarra por aí e eu vou te sorrir, te perguntar como você anda, como vai a sua mãe, seu pai, seus irmãos e o seu cachorro; você vai me dizer que sente falta e eu vou mentir que também sinto, falar que estou atrasada, cheia de trabalho, que preciso ir, e assim como me fez algumas vezes, eu te direi que vou te ligar para gente marcar alguma coisa, me torturando por dentro por estar mentindo. Bem que eu queria, sabe sentir algo assim outra vez, no entanto, o que antes era saudade virou só mais um pocinho raso dentro desse coração bem acostumado. E você vai me perguntar: - Ele te faz sorrir? E eu irei te responder: - Ele não me faz chorar!