terça-feira, 1 de setembro de 2009


Era cedo quando eu comecei a dançar, sozinha em um salão ainda vazio. Meus diminutos pés sorriam e não queriam nunca parar. Você não dançava, naquela época. Ficava o tempo todo sentado, observando, sempre com indiferença e tédio. Você me alegrava e incomodava, tudo ao mesmo tempo.
Foram passando os compassos e as claves de sol, enquanto eu rodopiava. A minha dança, com o tempo, se tornou triste e cansada -mas eu não conseguia parar. Passei algum tempo distraída, enfadonhamente repetindo os movimentos de sempre até que, quando dei por mim, você tinha se levantado da sua cadeira. De repente, quebrou-se a monotonia dos meus pés: estávamos juntos dançando um tango compassado, inesperado. Ora quente, ora gelado. Você é que me conduzia, estranhamente. Imprevisível. Incrível. Eu nunca sabia para que lado os seus passos incertos iriam me levar e tropeçava constantemente sobre seus pés. Você ria, me levantava e eu tentava ajustar meu tempo ao seu, aprendendo alegremente o seu ritmo. Era exatamente quando eu estava esperançosa de ter finalmente conseguido dançar que vinha uma reviravolta nos sons da música. Eu ficava novamente perdida.
Enquanto dançávamos, outros apareceram na pista, tentaram me tirar pra dançar. Aceitei alguns desconhecidos, mas não muitos. No final, eu e você sempre acabávamos voltando aos nossos velhos passos descompassados. E dançamos assim por meses: trôpegos, atrapalhados, infantis. Apaixonados? Cheguei a pensar. Até que em um momento, enfim, o som parou (nunca achei que esse tempo chegaria). E quando fez-se o silêncio eu tive a certeza de que aquele tango nunca mais voltaria a tocar. Me afastei devagar de você e derramei lágrimas que foram mais de saudade do que de dor. Eu gostava de tropeçar, desajeitada e estranha, nos seus olhos.

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