Vasculhei meu caderninho de nomes bonitos e encontrei o substantivo proprio que escolhia à dedo para viver comigo para sempre, no mundo: Bento.
Agora Bento me olha, e eu nao sei direito como interpretar. Baixa o par de oculos escuros num dia cinza, e o olhar profano me corroi. É o par de bolitas intensas e escuras, que ainda assim domina minhas ações, controla minha presença. Magnetiza. E tem mãos firmes e bonitas. Conversa leve, e ri as vezes. E me fascina ainda mais, cada vez com mais misterio, hipnotizando e me deixando ainda mais abobalhada, ansiosa e atrapalhada. Bento tem todo esse poder, desde sempre. Ja me fez chorar noites inteiras, e rir com convicção, sedutora. Bento aparece nas horas mais improprias, e se manisfesta das maneiras menos viaveis. É ele quem pega na minha mão sorrindo, e logo depois me tiraniza com sua frieza incontrolavel. Nasceu torto e bipolar, como eu. Coitadinho. Bento ja grudou na minha pessoa, e tive que o fazer desgrudar. Me socorreu em porres homéricos, e cuidou de mim na cama, apenas de roupão. Me beijou mesmo depois de me ver vomitada, no dia seguinte. E sumiu, como poeira na luz, voando, ou glitter, no carnaval. Reapareceu algumas vezes, e deixou lembranças inesqueciveis; marcantes. Bentinho é filho Pródigo, e retorna à casa por gosto , e nunca por obrigação. Bento me encontra no meio da rua, me aluga por horas. Tira meu sossego e sempre promete vingança. Me ilude com palavras doces, e aparentemente sinceras. Me pede massagem, virando de costas e me chamando pra perto. Joga contra a parece seu celular, e logo depois, meu corpo fragil e tenso. Me amassa, me unta, e me embala. Bento nao consegue ter tempo pra mim, e me liga no meio da madrugada. Quer me ver, e eu que aceite. Morre de amores pela minha barriga, meu cabelo comprido, e minha covinha nas costas. E nem assim, me quer pra sempre. Se faz de desentendido, e me lembra dos erros do passado. Começa um monologo sobre como eu deveria ser, e disparo, furiosa rumo à porta. Arrependido, volta sempre. Rabo entre as pernas, desculpas esmigalhadas. Em todas as duas voltas, estava diferente. Bento nunca retorna igual: ja teve cabelos loiros queimados pelo sol. Negros e finos. Me apareceu certa vez, com os cabelos mais normais do planeta, sem forma definida e de cor castanha. As vezes emagrece, e em outras dá uma engordada. Nos ultimos tempos, tem se mantido à altura: alto e que encaixe completamente no meu corpo graúdo. Bento tem sido cada vez mais bonito, e nao tem me decepcionado. Tão charmoso, é um convicto bon vivant. Me convida pra programas inusitados e alguns até de indio.
Bento me prende, e depois me solta, Tem a melhor conversa do Universo, e usa um perfume encantador. Embora, uma de suas calças de moleton esteja furada, e usa a camisa do time que eu detesto. Bento me enlouquece, e me devolve a sanidade. Tira de mim todas as palavras que quer ouvir, e a roupa é a unica que ainda fica no meu corpo. Por hora. Usa terno e depois bombacha. Moleton, e pijama de flanela. Joga futebol, basquete, e ora apenas dorme. Bento quer uma coisa, e eu almejo outra. Ele quer o que eu não posso lhe dar, e eu quero o que ele não está querendo disponibilizar. Vivemos um impasse cabo-de-guerra, e soltamos a corda, vacilados. Bento se foi. E agora, Bento volta. Como eu imaginava. Bento reaparece como promessa de vida, e de vontade. De verdade. Diferente, é logico. Promessa, eu disse. Isso mesmo. E, até quando? Inconstância. A regra do jogo é exatamente essa.
Bento não existe, e acho que nunca virá a se tornar real. Bento é o que eu trago de bom, de quem encontro pelo bosque diário, vida. Não passa da personificação de todos que me amaram, e não deram conta do recado que é ser encantado por um furacão. Bento é aqueles que amei, e fraquejaram frente ao desafio que sou. Bento não é ninguém , e ao mesmo tempo, é todos eles. E é exatamente por esse motivo que eu sou completamente apaixonada por Bento. Pra sempre !
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