Quem és tu?
Serás aquilo que vejo ou és o que faço questão de ignorar por temer repudiá-lo?
Aqueles gestos eram teus ou de um teu entre tantos outros que lhe dividem os
humores? As palavras saíram de teus lábios ou de uma de tuas mil faces? E este
amor que destino à ti, é de um ou de todos? Admiro-o com os olhos fechados, e
nesse momento, passas a ser guardião de milhares - como uma gaveta, guardando
dezenas de cartas de um só destinatário. Ao escancarar as pálpebras, desatar as
pupilas, vejo rostos e ações de seres distintos num só corpo. Me fascinam, me
encantam, me amedrontam. Pergunto-me por qual destes seres meu corpo congela,
qual toque anseio. Seria o ranzinza, com o cenho franzido e olhar de moço sério
e indiferente? Encanta-me. Seria o amoroso, com cafuné tranquilizador e braços
macios? Encanta-me. Seria o conquistador, com sorriso arrogante e camisa
desalinhada após longo beijo? Encanta-me. Encantam-me. Se tiveres mil faces,
por mil serei eternamente apaixonada. Com seus trejeitos, afetos e
contradições, encantam-me. Olhar teu rosto pálido na escuridão, os cabelos
bagunçados e a camisa amassada por tantos abraços que dei-lhe enquanto
repousavas, só me fazia sussurrar ao pé do ouvido: Encanta-me. Tens faces
diversas. Tens crueldade em sua sobrancelha cética erguida e doçura em seu
olhar de menino inocente. Tens descaso nos lábios apertados e graça no riso que
tentas - sem sorte - reprimir. Tens a alma de mil mundos entrelaçada num corpo
só. Tens a face de mil homens destinados à uma só mulher. E caberá a ela decifrar-te
um pouco todos os dias, sedenta, descobrindo-te cada detalhe na aventura de
amar. Tu és muitos dentro de um, e tantos são que ouso afirmar não ser
apresentada à metade. E penso não haver apenas amor de um só, pois todos -
mesmos os desconhecidos - despertam-me doçura de amor. E se mil faces tiveres,
mil faces amarei.

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